domingo, 21 de dezembro de 2014

Carta aos meus filhos #67

A mamã não sabe o que está a acontecer. Perdeu de novo o controlo sobre quem é, o que quer e o que faz.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Carta aos meus filhos #66

A mamã fez vinte e cinco anos.
Tem terror do tempo. Costumava ler livros sobre heroínas sempre mais velhas do que ela própria e agora dá-se conta de que se referem à minha faixa etária como a das solteironas. Não à luz do século XXI, mas à luz dos romances históricos que tanto estimo. A mamã viajou sozinha para Évora, agradecida por algum tempo a sós consigo mesma. Sabem o que a mamã fez? Dormiu. Escreveu três páginas de um romance e dormiu. Deu umas braçadas na piscina e dormiu. Viu a novela com um olho aberto e outro fechado. Depois dormiu.
A mamã começou a experienciar tristeza na dose em que as pessoas normais a sentem. Não desesperante, não angustiante, mas ainda assim tristeza.
A mamã agora dobra a toalha depois do banho. Faz a cama de manhã. Vai às compras e sabe o sítio do azeite nos supermercados.
A biologia, essa velhaca que não se adapta aos tempos modernos, grita-me que seja mãe. Sentada no restaurante "a Baiúca", em Évora, oiço-a gritar.
Mando-a calar-se. Ainda agora me emancipei, ainda nem sei quem é o homem da minha vida... nem quem amo, nem quem deixei de amar...
A mamã sente-se com o peso de mil anos nos ombros.

domingo, 16 de novembro de 2014

Carta aos meus filhos #65

A mamã está a aprender a viver um dia de cada vez, com toda a carga boa e má que isso implica. Na sexta-feira acordei às sete, comecei a trabalhar às oito. Às cinco saí para comprar um roupeiro velhíssimo, que cheirava a casa de velhota com dez gatos mijões. Combinei a entrega e fui dar aulas. A minha sala de aulas está a rebentar pelas costuras. A mamã está a adorar os jogos que jogamos. Chamam-me professorinha e trouxeram-me dois marcadores. Uma vez em casa, às sete e meia, peguei na lixa, na chave de fendas e na lata de tinta e deitei mãos à obra. Lixei o guarda-fato todo e dei-lhe uma camada de tinta por dentro e por fora. A bisavó Norvinda ajudou. Ajuda sempre mais do que lhe peço, tenho de insistir para que se sente e beba um chá, veja um pouco de tv, mas ela vive de ajudar os outros, por isso molha uma vez mais o pincel na tinta e continua a arrepiar caminho nas pinturas. Um dia pode ser que vocês herdem este guarda-fato. Vão achá-lo feio e demodé, mas foi pintado a quatro mãos. No final, até a Ana Filipa puxou lustro aos cantos para salientar o verde. É por isto que a mamá será sempre apegada a ele.
A mãe foi para a cama às tantas tanto na sexta quanto no sábado. Sem falar que, nesta semana, recebi dois alemães lá em casa e fiquei a lavar loiça até às duas da manhã. São coisas que a vida põe no nosso caminho. Os alemães no metro, perdidos, e a mamã a julgar que eram jovens de 20 anos numa espécie de interrail, e a explicar-lhes o que poderiam ver em Almada, e a deliciar-se com as exclamações deles perante as vistas de Lisboa. A mamã deve algo à Alemanha, sabe disso. Por isso convidei-os para jantar. Chamei as amigas e recebi-os. Dei-lhes toalhas e um secador para secarem os pés. Pareciam estupefactos, diziam que era algo impensável na Alemanha, jamais aconteceria. E a mãe gostava de ser daquelas pessoas que marcam pontos de viragem na vida dos outros; de agora em diante, talvez as pessoas confiem mais. Talvez os alemães se dêem mais. Não sei, são pequenas esperanças que me fazem feliz. Ofereceram-me bombons Merci, um anjinho a dizer que sou eu a iluminar-lhes o caminho e rimos muito. Fizémos-lhes bacalhau com natas, pusémos pimba português e descobrimos uma nova faceta dos alemães ao conhecermos o pimba deles também.
Exausta, não pude limpar a casa no sábado, que é o ritual habitual.
Continuei nas pinturas do roupeiro, com ajuda de um par de mãos extra. Limpei a casa toda no domingo, depois de acabar as pinturas do roupeiro. Pu-lo no sítio e fiquei maravilhada com o resultado. Depois foi arrumar a roupa. Tanta tralha insignificante que uma pessoa acumula em quase vinte e cinco anos de existência!
Tudo terminou com um concerto inesperado de James Blunt no domingo, a vida a fazer das suas...
A mamã ama. Ama sem ilusões, ama muito. Contudo atingiu a paz de alma que sempre almejou. A certeza de que não é possível e de que devemos tirar o melhor de cada situação.
A mamã é feliz. No sad goodbyes, no tears, no lies, just going in separate ways. And God knows it is hard to find the one.
A mamã...
Um dia conto-vos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #64

Era tão mais fácil se o vosso pai me desse a mão e declarasse que, de agora em diante, somos só os dois...

Mas não, ele anda escondido.

A mãe ficou sem voz de tanto chamar por ele.

Lá vai...
Mais um erro.

domingo, 26 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #63

A mamã anda a deitar-se tarde.

[A mamã anda louca de vontade de carregar um bebé na barriga, besuntar-se com creme gordo, dá-lo à luz e amamentá-lo.]

A mamã anda com um bloqueio criativo, mas lida bem com isso. Em fases que me custam escrever, aproveito para corrigir/rever os escritos.

Ontem a mamã cometeu uma pequena loucura... comprou os seus primeiros óculos de sol de marca. A mamã não deveria. Mas é meio maluca, mesmo.

Hoje revirei a roupa toda na casa da avó Norvinda, numa tentativa de decidir o que quero aproveitar do meu neverending wardrobe e o que quero deitar fora. Encontrei umas calças largueironas, cheias de marcas de tinta, e estou a vesti-las. Gosto de as sentir largas nas pernas, estreitas nas ancas, e de ver o tom de vinho das unhas dos pés a surgir abaixo delas.

A mamã vai abrir a janela, acender um cigarro, escrever qualquer coisa.

A mamã sente que está a entrar noutra das suas fases rebeldes.
Passa rápido, a mamã já se conhece.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #62

11 de Agosto 2014

Meus caros,

No rescaldo do sucedido com o inspirador actor Robbin Williams, que possivelmente foi levado pela depressão, ganhei coragem para me confessar.
Desde meados do ano anterior que ando a debater-me com esse mesmo fantasma. Não soube de imediato que melancolia era aquela. Sabem quando se está deitado ou sentado, à procura de uma posição mais confortável, sem que nos sintamos bem de modo algum? Foi mais ou menos isso.
Primeiro um certo grau de insatisfação, um pouco de desencanto a juntar-se à receita, uma certa perda de identidade. Mudei-me para a Alemanha em busca de mim própria e de “uma vida melhor”. Depois entendi que lá estaria pior do que cá. Durante a semana que estive na Alemanha, jamais dormi. Todas as noites tinha a estranha percepção de que alguém entraria em casa a qualquer momento para me fazer mal. Dormia com um olho aberto e outro fechado, julgava ouvir passos nas escadas e até respirações arrastadas no andar debaixo.
Quando regressei a Portugal, passei a dormir durante o dia, além da noite. Estava sempre cansada e sem energia. Se estivesse fora de casa, sentia um terror irracional a respeito da possibilidade de virem para me fazer mal. Eu, que sempre disse à boca cheia não ter medo de coisa alguma.
De repente a minha força estava quebrada. E eu chorava. Chorava por não me reconhecer. Chorava porque não via saídas em direcção àquilo que eu queria ser.
Depois apaixonei-me e vivi uma história de amor bonita. Enquanto esse homem me beijava os dedos ressequidos do frio do inverno passado, não chorei. Mas a distância e as dificuldades deitaram-me novamente abaixo. Mesmo estando com ele não conseguia ser feliz. Não conseguia evitar cobri-lo de medos e de inseguranças, nem conseguia impedir-me de ir sentar-me no chão da casa de banho de porta trancada a chorar à noite. Quando ele me chamava, me perguntava se estava bem, limpava as lágrimas, envergonhada, e voltava para o lado dele. “Nada, nada”.
Quando tudo acabou, em parte porque entendi que estava a matar-nos, já estava num buraco negro de difícil saída. Foi aí que entraram os amigos.
Aos amigos; obrigada. O-B-R-I-G-A-D-A. Nem toda a gente passou neste difícil teste. Quem me achava metediça, nariz no ar, a precisar de umas chapadas para “ver se cresço”, disse-mo na altura de um modo ou doutro. Nunca  ninguém me tinha visto tão em baixo, por isso foi fácil abandonarem-me. Foi fácil desistirem de mim. Não para os amigos, contudo. E, por isso, um agradecimento infinito por terem estado ao meu lado quando nem eu era capaz de valer-me.
Disse-lhes, aos amigos, que não conseguia ser feliz de maneira alguma. Que não tinha projectos de futuro. Que nada me fazia feliz nem me trazia prazer. Eles, na medida do que se entende de alguém desanimado, tentaram dar-me motivação. Aconselhar-me a ter pensamentos mais positivos. De repente tudo aquilo pelo qual eu deveria estar grata era diariamente enumerado. Os livros, a casa, os irmãos, os gatos, a avó prestável, o país em paz, a barriga cheia.
“A depressão é a doença do pensamento”, li, e é mesmo. É como se a voz dentro da nossa cabeça tivesse vontade própria. Fala, fala, fala. Diz que isto é difícil, aquilo é difícil, o ontem foi complicado mas o amanhã vai ser pior. Pergunta-me se estou certa de querer estar por cá, se não valeria mais a pena ir-me já embora. Bater a porta e sair pela porta dos fundos.
Fui diagnosticada nas urgências de um hospital público, num dia em que a ansiedade e as tremuras na ponta dos dedos me impediam de ir trabalhar. Foi mais ou menos assim:
Um casal de médicos sentados perante mim. Um homem de telemóvel em punho, que nem sequer ergueu os olhos do aparelho para me ver entrar. Uma mulher jovem e bonita, que me fez uma série de perguntas às quais respondi o melhor que pude:
- Tem-se sentido cansada? Check.
-  Tem uma má relação com os seus pais? Check.
- Costuma chorar muito? Check.
- Sente-se desesperada? Check.
- Quer tirar férias? Check.
- Já pensou em morrer? Check.
- Mas queria só apagar-se ou faria algo nesse sentido? Double check.
Mandaram-me para casa com receitas de antidepressivos para seis meses. Disseram que o único efeito secundário seriam enjoos matinais. Nunca enjoei. Ao invés, sentia o cérebro toldado o dia inteiro. Mal consegui articular uma frase durante três ou quatro dias. No emprego, não conseguia sobreposicionar as tarefas. Abria um e-mail e sabia que tinha de ir ao Excel. Quando chegava ao Excel já me esquecera do conteúdo do e-mail.
Dormia o dia inteiro. Acordava às 10:00, voltava a dormir ao meio dia, incapacitada sequer de esperar pelo almoço. Depois acordava às seis da tarde, sem sono mas também sem qualquer motivação para fazer fosse o que fosse. Ler? O meu hobby de sempre? Nop. Escrever? Demasiado difícil para quem está reduzido a uma alface. Cheguei a estar na casa de banho, sentada, sem qualquer certeza de estar ali porque acabara de fazer chichi ou porque ainda ia fazer chichi. Desejo sexual? Nenhum. Uma alface anémona. Era o que me chamava, na altura, numa tentativa patética de trazer algum humor sobre a situação.
Felizmente o meu patrão foi excepcional, compreensivo e despreconceituoso. Mesmo quando eu me encolhia ante o estigma de ser agora uma doente do foro psiquiátrico, o meu patrão nunca me recriminou nem pressionou. Mandou-me para casa nesses dias em que mal conseguia abrir os olhos.
Com as semanas, aprendi a controlar o sono e todos os outros efeitos se atenuaram. Já fazia a minha vida com normalidade há dois meses quando tudo regressou, pior ainda.
Quando comecei a tomar esses comprimidos, esse Escitalopram, não conseguia sequer soltar uma lágrima. Imaginem a situação; alguém vos diz “a tua mãe morreu”, e eu tinha uma vaga noção de que isso é grave e que, não fossem os comprimidos, cairia de joelhos em lágrimas. Ao invés acenava e perguntava o que deve ser feito agora. Estava seca de lágrimas e de emoções.
O escritor norte-americano, de origem mexicana, Francisco X. Stork (Marcelo no Mundo Real), está a escrever um livro sobre uma jovem a combater a depressão. Perguntou-me se seria capaz de me apaixonar por alguém estando doente desse modo. Sim, é possível apaixonarmo-nos por alguém tendo depressão. Mas é impossível apaixonarmo-nos tomando antidepressivos. Os nossos sentimentos ficam reduzidos à básica noção de certo e errado. Sabemos quem esteve sempre ao nosso lado e quem nos causou mal. Mas a complexidade de um amor? Não. Ou talvez seja só eu, que seria incapaz de submeter um homem aos altos e baixos deste meu naufrágio.
Tendo voltado a chorar, a querer desaparecer, e tendo os meus amigos a assistirem-me de perto e a revezarem-se para olhar por mim, foi óbvio que os antidepressivos que me passaram não estavam a funcionar mais.
Por esse motivo, voltei ao Psiquiatra.
“Tenho vinte e quatro anos e vou ao Psiquiatra”. Na sala de espera havia sobretudo homens de meia-idade. Apesar de o médico ser privado, eles entravam e saiam com rapidez da sala, munidos de receitas. O psiquiatra tem, decerto, mais de setenta anos. Não acredita em psicoterapia. Não me perguntou absolutamente nada da minha vida. “É feliz?”, “Morreu-lhe alguém?”, “Foi despedida?”, “Sofreu uma separação recente e difícil?”. Nop, nop.
“Dorme bem?”, “Sente-se nervosa?”, “Tem a certeza que não quer baixa?”. Depois perguntou-me, por curiosidade, o que faço. Ao ouvir “turismo”, dispara a sua opinião sobre os eventos da faixa de Gaza. Estávamos em Julho.
Lá fui aviar-me do novo kit. Antidepressivos em dose dupla, anti-ataques de pânico e comprimidos SOS, para cada vez que a vida ameace não fazer sentido eu atire de imediato um para debaixo da língua. Depois adormeço, encerro a fealdade e acordo com passarinhos a cantar e sol no céu.
E o choro? A cabeça quase explode, na nuca. E os pensamentos? Não controlo ainda nenhum deles. Seguem vias demasiado obscuras para a pessoa que eu costumava ser.
A minha maior preocupação é esconder todo este desespero, toda esta sensação de final de linha, da minha pobre avozinha. Ela não entenderia nem aguentaria ver-se obrigada a estar ao meu lado agora. E as minhas irmãs. Não quero que me vejam assim. Não quero que saibam aos oito e aos catorze anos, como eu também não soube até aos vinte e quatro, o que acontece com uma pessoa que perde a força de vontade e o desejo de viver.

21 Outubro 2014

Agora estou bem. Reduzindo a dose absurda que o médico me passou, sorrio. Foi a andar na rua que, primeiramente, senti um rasgo de amor. Pensei "voltei a amar”. Depois, dias mais tarde, a minha mãe disse-me, a meio da semana ao telefone, que estava a pescar. Ri-me sozinha. Era algo muito meu, rir-me sozinha, e pensei algo do género “Bem-vinda de volta, Célia”. Voltei do submundo, não hajam dúvidas.
Estou forte, de pé, feliz, ainda a recuperar, ainda medicada, mas a apreciar cada instante deste renascer. Estive num buraco tão fundo que, meses depois, tudo o que me importa é mesmo agradecer a quem saiu do seu caminho para vir tirar-me do chão, para vir limpar-me as lágrimas, para ter coragem de me chamar de mal-agradecida quando qualquer estilhaço poderia ser-me fatal. Obrigada a quem teve coragem de me gritar que a vida é dura quando eu me julgava incapaz de suportar a sua dureza. Obrigada por não terem mentido e por não me terem pegado ao colo e por não me terem prometido que daqui por diante tudo seria mais fácil. Obrigada por me terem garantido que tudo continuaria tal como está, eu é que ganharia nova fibra.

Para quem tiver depressão… preparem-se. As pessoas vão chamar-vos de loucos. Vão dar estalidos com a língua, acenar negativamente, suster um risinho cínico no canto dos lábios. Vão chamar-vos de mimados, de malucos, de imaturos, de mal-agradecidos, de drama queens/kings. Vão descortinar tudo aquilo que vocês têm que é digno de gratidão e vão enumera-lo vezes sem conta. Vocês vão ficar fartos da lenga-lenga, mas quando começarem a sentir-se melhor, essas palavras vão começar a fazer sentido. Quando se agarrarem de novo à vida, quando a nuvem passar, serão vocês a enumerar essas mais-valias. A voz ao fundo a vossa cabeça, a mesma que vos dizia que não iriam a lado nenhum, que ninguém vos compreenderia, que ninguém sobraria para vos dar a mão, dá lugar a esse sibilo. Ao das coisas boas.
Se estiverem com depressão, lembrem-se que a voz que procura levar-vos não é a vossa, não são vocês que estão fartos de viver aos dezasseis, vinte, vinte e quatro, cinquenta, sessenta anos. Vocês querem viver, e têm motivos para viver, e devem extrair essa raiz má que se apodera do vosso jardim. Devem acreditar que melhores dias virão, mas que a viagem é difícil. O que vos dava prazer voltará a ser prazeroso. O prometido remédio custa, é amargo, há muito a ultrapassar – vão conhecer os limites da vossa mente e do vosso corpo - antes de começarem a melhorar.
Sobretudo, aproveitem este teste para saber quem tem a sensibilidade de vos compreender (ou tentar) e de vos amar seja como for. Agarrem-se a quem ficou, porque esses são os que não devem deixar ir a lado algum.
E, por favor, não tenham vergonha de falar. Falem com os vossos amigos, falem com os vossos familiares, façam entender-se. Exteriorizem o que pensam, mesmo o que vos pareça mais absurdo. Trabalhem sobre isso. Quando puderem não pensar, não pensem. Descansem. Contemplem tectos, dêem-se tempo. Se ficar em casa é o vosso descanso, fiquem. Se o vosso local de trabalho é o vosso refúgio, mantenham essa rotina intocada para não se sentirem completamente desligados de tudo. Um pé na sociedade, um pé na rotina de uma pessoa “comum”, podem ser um gancho para a cura.
Procurem o especialista correcto. Nessa altura, tudo o que importa é que alguém consiga compreender-nos, não nos julgue fracos, nem desistentes, porque só nós sabemos tudo aquilo pelo qual lutamos e o nosso rosto não é mais do que a cara da derrota.
Um dia, prometo-vos, podem voltar a exibir os vossos sorrisos de triunfo. Um dia, isto sou capaz de jurar, regressarão das cinzas, passarinhos feridos, desajeitados, mas acabarão por abrir as asas e por voltar a voar por vocês próprios.
É só uma fase. Não tem nada de vergonhoso nem de definitivo. 
A mamã pensou que nunca mais voltasse a sorrir... e é ver-me de dentuça arreganhada.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #61



Meus queridos,

O tempo voa. A prova disso é que os dias custam as passar mas as semanas sucedem-se sem novidades. Não chego a ter oportunidade de me entusiasmar com nada, porque já o desafio se encontra aos meus pés. Não tenho possibilidade de me preparar porque já é hora de entrar em cena. Nem sei as minhas falas e vou debitando o pouco de que me recordo. Os flashes já não me cegam, porque na realidade já não me importo.

Faz hoje um ano que conheci o italiano. Era um homem alto, de casaco escuro comprido, austero, de pasta na mão. Pareceu-me pouco acessível num primeiro instante. Tão sério que me custou, mais tarde, a ouvi-lo professar opiniões, a sorrir, a fazer piadas sobre os pombos que se atravessaram imprudentemente no nosso caminho em Madrid. Tão sério que me deliciou a cada vez que a sua voz roçou a rouquidão da sinceridade. E ele foi sincero comigo. A mãe sabe que ele foi sincero, decente e honesto comigo. Ainda assim, o balanço da nossa breve relação não é positivo. A vida interferiu. Interpôs-se. Ergueu vales e mares entre nós e não disponibilizou a tal manta de 3000 km para que pudéssemos assistir a filmes juntos, sob as suas malhas.

Ele teve muita paciência para mim, sabem? Ouviu-me, limpou-me as lágrimas, abraçou-me, aconselhou-me. Era um homem muito jovem e muito sábio, e a mamã aprendeu coisas importantes com ele. Não aprendemos coisas com muita gente, muito menos coisas importantes. Acabou porque ele voltou atrás, voltou a uma pessoa que não lhe dizia nada. Porquê? Por sexo? Pelo exotismo de se relacionar com uma estrangeira? Para ter casa noutro país? A mamã não sabe. Seria mais fácil entender se ela não fosse dez anos mais velha do que ele, divorciada, mãe. Se fosse uma rapariga jovem, a mãe entendia. Se fosse alguma daqulas miúdas desmioladas que tiram selfies para o instagram por aborrecimento a mãe entendia. Se fosse alguém novo a mãe entendia. Mas é alguém do passado. Ele falhou-me no momento em que mais precisava dele, para voltar a algo que sabe que não tem futuro. Segundo ele, ela mal fala inglês. Que tipo de entendimento partilham? 


Não tenho uma auto-estima tão baixa que ache que foi culpa minha. Fui eu que pus o ponto final para que as coisas não se arrastassem mais. Doía-me a saudade dele.

Tudo acabou com uma promessa de uma conversa e de um beijo. Uma conversa e um beijo que nunca vieram.

Um ano depois, esqueci o cheiro dele. Mas não a voz, e não o sorriso, e não a textura das mãos que procuravam as minhas numa qualquer viagem de comboio, nem o olhar doce que me pedia que me chegasse para lá, na cama, porque estava demasiado perto para que pudesse estudar-me os traços. A mãe amou-o. Não um amor que dure uma vida, não um amor que dure um ciclo completo de estações, mas a mãe quis amá-lo e amou-o. E ele, de mansinho, deixou-me gritando a plenos pulmões que não queria deixar-me.

O problema que a mãe teve aproximou-a mais dos seus melhores amigos. Porém, levou-mo de vez. Poderia ter sido a minha vida ou a presença dele. Levou-o a ele.

Melhor assim.

A mãe estava tão apaixonada por esse outro homem... Quando o vê (sempre na imobilidade em duas dimensões das fotografias), ainda lhe cai qualquer coisa cá dentro. É a morte de algo que nasceu de arco-íris e asas de borboleta. A mãe sentou-se numa pipa, numa qualquer bodega de Toledo, e beijou-o. E ele beijou-a. Beijámo-nos durante muito tempo. Beijámo-nos até as pessoas se cansarem de olhar, até os casacos desaparecerem dos cabides em redor, até as pessoas terminarem de almoçar e saírem, até os nossos perfumes se mesclarem. Lá fora chovia, lá dentro cheirava a vinho e a madeira. Cada um sentado na sua pipa, os nossos joelhos esgrimavam, as nossas mãos entrelaçavam-se e beijámo-nos. Durante uma eternidade que me parece agora tão breve, beijámo-nos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #60

Jantar #1
Receita #1
Lombo de Porco com Pimenta Vermelha, Pistachos e Puré de Maçã Verde e Lima


Lombo de porco q.b.
Pimenta vermelha q.b.
5 Maçãs verdes
2 Alhos para untar a carne
Sal q.b.

Acompanhamento: batatinhas a (OK, a mamã esqueceu-se do murro)
murro

- Temperar a carne com a pimenta vermelha, esfregando os alhos nela e a pimenta vermelha. Sal q.b.
- Fazer um refogado com alho, azeite, manteiga e água q.b. Pôr a carne quando os alhos estiverem cozinhados. Deixar apurar.
- Quando a carne estiver quase cozinhada, acrescentar cebolinho. Ver se está cozida por dentro antes de a pôr no forno; cortar em fatias.
- Levar a carne ao forno com o molho, coberta de pistachos.
- Cozer as maçãs, escoar a água e esmagá-las com a varinha mágica. Se forem demasiado doces, espreme-se o sumo de uma lima até o sabor ficar mais neutro.
- Deve servir-se a fatia de carne sobre o puré.

O vinho para acompanhar:

Foi perfeito. A mamã não sabe se vocês iriam gostar. Mas acha que o vosso papá sim, que ele será grande apreciador deste prato.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Carta aos meus filhos #59

A mamã hoje improvisou um jantar completo. O gás está por fim a funcionar e a mamã fez um creme de coentros leve, uma lasanha improvisada de espinafres, carne e béchamel (inesperadamente) de soja e, para sobremesa, tarte de lima. Estou a tentar por vocês, está bem? E pelo vosso pai. A mamã quer fazer o vosso pai muito feliz, como só faz quem nos alimenta o corpo e a alma.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Brasil---ziu ziu

Entendendo o Brasil em números, falamos de 200 milhões de habitantes, cerca de dezoito vezes a população portuguesa. Enquanto Lisboa alberga 500 mil habitantes, a cidade mais populosa do Brasil, São Paulo, é casa de onze milhões. Neste momento, é possível que tenha mais habitantes do que a população residente de Portugal.
Conheci Salvador e Brasília. Sem dúvida que preferi Salvador a Brasília. Senti-me em casa em Salvador. O motivo é simples; Salvador tem história, tem cultura, enquanto Brasília foi criada de raiz em 1956 com o propósito de se tornar sede do governo.
A minha perspectiva sobre o Brasil é um pouco semelhante à que tenho do meu país, embora, uma vez mais, um país sirva para aprender a dar valor ao meu. As minhas ideias pré-concebidas, contudo, vieram todas por água abaixo.
A ideia de os brasileiros serem demasiado ingénuos, por vezes até burros, só funciona para marinheiro de primeira viagem. O choque de mundos (primeiro e terceiro), é de tal modo contrastante que eu própria fiz figura de idiota por todos os sítios por onde passei. Pareceu ser tudo novo, do taxímetro aos buffets a peso. Metia-me sempre na fila errada do controlo de passaportes, fazia as perguntas mais tolas por insegurança e estava na dúvida em quem confiar.
A ideia de os brasileiros serem meio malandrecos também não é totalmente verdade. Passei por uma obra, de saia e saltos, e sim… os senhores pararam de trabalhar por um instante, mas retomaram sem nenhum “Ó jóia…!”. Fiquei até de auto-estima em baixo. Em Portugal haveria show de assobios, só porque sim.
A ideia de o Brasil estar povoado de bandidos é mentira. Só me cruzei com taxistas honestos, recepcionistas calorosos, pessoas atenciosas, profissionais, detentores de uma seriedade que falta mesmo aos portugueses, em grande parte do tempo.
A ideia de o brasileiro ser um desactualizado que só quer saber de chope e forró é outro pé na poça. Toda a gente com quem falei sabia o nome dos candidatos à presidência, os partidos, o background de cada um, quem já esteve no poder, quem se enrolou com quem, quem foi condenado pelo quê. Apesar de serem obrigados a votar, viu-se um interesse generalizado no panorama político e socioeconómico do país. Por cá desconfio que se muita gente fosse obrigada a votar iria à urna só para plantar uma cruz ao acaso no boletim.
A ideia de o brasileiro só ouvir Michel Teló e Gabriel Valim é absurda. Quantas vezes perguntei aos meus taxistas (todos eles maravilhosos e pessoas enriquecedoras) que música era aquela que ia a tocar no rádio. Jazz com letras em brasileiro, blues, bossa nova, clássicos dos anos 80. Um mimo para os ouvidos. Nem sombra do Show das Poderosas.
Fiquei com o peito apertado ao ver o contraste de riqueza e pobreza que cobre Salvador. Uma percentagem enorme da população vive no limiar da pobreza, com casas sem reboco nem revestimento, de tijolo à vista e roupa estendida numa janela sem portadas. Depois há prédios futuristas tanto em Salvador como em Brasília que não existem nem em Lisboa, todos com vista favela. E a favela tem vista centro histórico e prédio ultramoderno.
O sistema de saúde é uma piada. As pessoas morrem na sala de espera (café da manhã e notícia na Globo; idoso morre em sala de espera de hospital em Pernambuco). Quem recorre ao privado paga cerca de 300 reais por mês (quase 100€) e espera semanas por uma consulta. Estamos a falar de um mercado de 200 milhões de pessoas. Não de uma aldeia como Portugal.
Há um certo proteccionismo na economia que faz disparar o valor dos produtos importados; de roupas a tecnologia, os valores são demasiado altos para acompanhar o nível de vida da maioria dos cidadãos. Foi-me dito e repetido que compensa mais apanhar o primeiro avião para Miami e pagar o peso extra, e regressar com tablets, telemóveis, ténis de marca, casacos de griffe.
Os brasileiros são muito consumistas, não apenas na Europa. E o sistema facilita a compra de tudo em prestações. Bati os olhos num iPhone 4S a 499 reais, que é tipo 170€. Qual o meu espanto quando verifico que essa é apenas uma das prestações. Os valores surgem “Barbie – $39,99 x 6 vezes”. Se pagar a pronto tem desconto de 20 reais. Na realidade são os juros, assim mascarados para não desmotivar o consumidor. Em contrapartida, a comida e os serviços são super baratos. (E que comida a deles, Jesus!!! Merecia destaque internacional, é melhor que a italiana, no meu modesto parecer).
A média de assassinatos semanais em Brasília é de 18. Significa que esta semana podem morrer 2 pessoas e para a próxima morrem 34. Um jovem estudante foi esfaqueado e morreu num dos bairros da cidade. A mãe chorava na televisão, ninguém parecia especialmente comovido, porque é o pão nosso de cada dia.
Os cães deambulavam pelas ruas de Salvador, esfaimados, sem que ninguém possa prestar-lhes atenção, porque a cidade é uma espécie de selva onde todos lutam pela sobrevivência. Deitada na paragem junto ao paredão, uma jovem foi levantada pelos cotovelos por um homem. Estava drogada e mal abriu os olhos quando desapareceu por uma ruela aos tropeções.
Prostitutas e travecas inundavam o paredão à noite, fumando e deitando olhares expectantes aos carros que passavam. O negócio vai mal, mas há que aguentar de pé sobre os saltos, até a manhã raiar.
Havia ruas no centro histórico de Salvador onde parecia que um cataclismo causara o estado de cenário pós-apocalíptico. Edifícios históricos só com a fachada de pé e as gaivotas a voar por entre as janelas outrora apaineladas. A calçada em tudo semelhante à nossa levantada, inchada, vergada, irregular, desfeita em cacos e a tombar sobre a estrada, revelando a terra húmida do seu interior.
Um calor que se nos agarra à pele e que nos faz sentir peganhentos, suados mesmo que não estejamos a suar. Uma doçura que favorece a impaciência dos mosquitos envolve-nos como mel e quando damos por nós estamos num restaurante de referência e uma barata atravessa a parede para se acercar do ar condicionado. “Parece uma sapateira!”, grita alguém, e a empregada corre a ir buscar o certificado de desbaratização do local, bem recomendado no TripAdvisor.
Quanto a Brasília, o mais monumental dos projectos arquitectónicos do século XX, trata-se de uma cidade relativamente segura, desde que não cruzemos os seus limites e nos aventuremos nos subúrbios, ou satélites, como lhes chamam lá. Os transportes funcionam, o projecto de construir uma capital foi pensado ao pormenor e não prevê cruzamentos, as vias são circulares e permitem o escoamento do tráfego sem aborrecimentos de maior.
Óscar Neimeyer é o principal responsável pela cidade monumental, dividida em quadras (bairros com funções específicas), que é Brasília. Há a zona dos ministérios, o Eixo Monumental que atravessa a cidade de fio a pavio e ao largo do qual todos os edifícios de interesse se agregam, a torre da televisão com subida gratuita, de onde podemos observar a cidade, que me pareceu um bocado com a ideia que tenho do México, uma espécie de faroeste tão apocalíptico quanto imponente, a quadra comercial, a quadra empresarial, a quadra hoteleira, etc., etc., etc. Muitos empresários e poucos turistas circulam pela cidade. O calor é seco e infernal, daí que um lago artificial de enorme extensão procure humidificar um pouco as vistas. Comi melhor do que na Bahia em Brasília, e fiquei deslumbrada com mais esse contraste nesse país que, na realidade, tem a dimensão de um continente. No meio da rua, uma senhora de talvez cinquenta anos abordou-me e pediu-me que lhe desapertasse o soutien. Só assim. Não sou da mesma nação nem do mesmo continente, nem da mesma faixa etária, mas alguma coisa partilhamos. Fiz-lhe o jeito com gosto, desejando ser também um pouco mais aberta e pedir às almadenses da estação de MST que me desapertassem o meu em dias de encalorado sufoco.
E é assim, o brasileiro. Sorri, diz bom dia. Pede que olhe pelo filho pequeno que mergulha na piscina enquanto vai ao quarto buscar o protector. Diz-me que pague a corrida de táxi abastecendo o carro. Sorri-me e diz que os meus olhos são bonitos. Pergunta-me que língua é essa que estou a falar. Aconselha-me a não andar sozinha nas suas ruas, mas acrescenta, com um encolher de ombros, que pessoalmente nunca foi assaltado, mas conhece um caso. E em tudo isto reside o seu encanto e o seu poder sedutor. No sobrolho de quem trabalha, na mão calejada, no sorriso que serve o suco de uma fruta cujo nome sou incapaz de pronunciar. Na mão que puxa o meu braço e promete proteger-me da impunidade do seu próprio povo.
É preciso que o brasileiro pense melhor do Brasil. É preciso que pense melhor do seu compatriota brasileiro. Que exija mais dos seus comandantes. O Brasil é um país de gente boa, trabalhadora, honesta (não falo dos políticos) que tem tido os capitães errados. Outra terra próspera entregue aos loucos.
 Envolvidos pela tranquilidade do mar, iluminados pelas constelações no hemisfério sul e incomodados pela inquietação dos mosquitos… os brasileiros são, sem dúvida, um povo nosso irmão. 
O mais nosso irmão de todos os povos.

domingo, 14 de setembro de 2014

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #57

A mãe está melhor.
Voltou a sentir amor.
A sensação de vertigem associada ao amor.
Mas não está desesperada. Acredita que tudo tem o seu tempo. Que o que não está destinado não tem lugar. Que os caminhos apenas se fecham para empurrar-nos da direcção que é suposto seguirmos.
Logo vou falar com as cartas.
Vou perguntar-lhes pelo homem por quem estou apaixonada.
Vou perguntar-lhes se ele se lembra de me cantar ópera pelo sistema de mãos livres do carro até eu chorar de tanto rir. Vou perguntar-lhes se ele se lembra do número de vezes que disse que gostava de mim. Do número de vezes que me chamou de princesa.
Do número de vezes que me reconfortou.
E do resto... que era tão nosso, porque éramos duas almas em sintonia e só a distância soube quebrar-nos.
A mãe... gostaria muito de voltar a ser a miúda dele.
Vou estar atenta às oportunidades.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #56

A mãe costumava rir-se por tudo e por nada.
Costumava encontrar beleza nas coisas pequenas; uma borboleta que insistiu em pousar em mim rua abaixo, um gato que se escapa de rabo-tipo-escovilhão de um mata velhos, as brincadeiras da bisavó Norvinda.
De repente, a mãe deixou de ver beleza em tudo. Deixou de ver formas nas nuvens. E isto segue há vários meses.

Hoje a mãe ligou à avó Vanda. Seriam cinco e meia da tarde. A avó Vanda tinha uma coisa muito importante para tratar. Mas é a avó Vanda, o que se pode esperar?
- Mãe, onde estás? - Perguntei, quando ela atendeu o telemóvel.
- Olha filha, a mãe está a pescar.
E foi isto.
A avó Vanda a gritar, do outro lado do telefone, embora não estivesse sequer a 1 km geográfico de mim, que estava a pescar.
E a mãe, depois de devolver o telemóvel à mala, pôs-se a pensar.
"Pescar. Fishing. Fishing. My mother is fishing. She is fishing. Fishing. The world is a mess but my mother is fishing".
E ri-me como há muito não me ria.
Sozinha.

sábado, 16 de agosto de 2014

Carta aos meus filhos #55

Uma vez a mãe apaixonou-se por um homem que leu As Aventuras do Robinson Crusoé, as Viagens de Gulliver e A Ilha do Tesouro. A mãe amou-o mais um bocadinho quando ele lhe falou do modo como esses livros lhe influenciaram a visão das coisas; o sabor adocicado da aventura em páginas tão estimadas de literatura.
A mãe quis muito que esse homem de olhar bondoso, esse homem que entrava em chocolatarias comigo e me perguntava "o que queres?" fosse o vosso pai.

Depois dei-me conta de que, vinte e cinco anos desperdiçados com um homem e cinco filhos depois é que a minha mãe, a avó Vanda, é finalmente feliz. Finalmente encontrou, passados cinquenta anos de vida, um homem com quem comunicar lhe é fácil, dar as mãos é fácil, ser uma equipa é fácil. E este homem esperou por ela a vida inteira. Viu-a ter um, três, cinco filhos com outro. Acabar e recomeçar com o outro. Chorar e prejudicar-se pelo outro. E continuou a acarinhar a esperança de a ter. Entre filhos, entre desgostos, lá estava ele, paciente.
E agora a avó Vanda é feliz. Só fala dele, e já estão juntos há um ano. Parecem dois pombinhos ciumentos e muito apaixonados.

Quanto tempo terei de esperar para reencontrar um homem que espere que eu adormeça para soprar, contra o meu ombro, "ti voglio bene"?